O regresso de um campeão com a ambição de levar Portugal ao topo mundial
O voleibol português prepara-se para iniciar um novo e entusiasmante capítulo. Rui Moreira está de regresso a Portugal para assumir o cargo de Selecionador Nacional da equipa de seniores femininos. Sucede no posto a Hugo Silva, um dos seus grandes mentores no desporto, assumindo a liderança técnica da equipa das «quinas» após um percurso recheado de conquistas nacionais e internacionais.
O técnico luso regressa ao país com o prestígio reforçado além-fronteiras. Na bagagem traz a histórica conquista da Superliga brasileira ao serviço do Dentil/Praia Clube, feito alcançado numa das provas mais exigentes e competitivas do panorama global do voleibol. Paralelamente ao desafio de orientar a seleção, Rui Moreira continuará a acumular as suas funções no clube brasileiro, prosseguindo a sua afirmação e abrindo caminho para os treinadores portugueses em terras de Vera Cruz.
O sentido de missão e a sucessão na Seleção
Assumir a liderança da Seleção Nacional surge num momento de consolidação do voleibol feminino português. Depois dos marcos atingidos sob a orientação de Hugo Silva – como a conquista da Silver League em 2024 e o apuramento histórico para os oitavos de final em 2026 –, Rui Moreira encara a nova etapa com responsabilidade e um forte sentido de dever pátrio.
O novo Selecionador Nacional faz questão de saudar o trabalho desenvolvido até aqui:
«Primeiramente, cabe-me dar os parabéns pelo trabalho que tem sido feito nos últimos anos, tanto a nível de resultados, como a nível de evolução e desenvolvimento. Estive no primeiro apuramento e no primeiro Campeonato da Europa em 2019, muitas destas atletas deram os primeiros passos na Seleção Sénior e nessa competição nessa altura, e são notórios a evolução e o desenvolvimento desde esse período até agora. Por isso, parabéns ao Hugo, ao seu Staff, à FPV e às atletas pelo que conseguiram alcançar nos últimos anos».
Para o futuro próximo, a ambição passa por consolidar e ultrapassar as metas já atingidas, com os olhos postos em novos palcos internacionais:
«Acho que o nosso primeiro passo é entender o que de bom foi feito, quais os pontos de melhoria e onde podemos continuar a crescer. Precisamos ter a capacidade de olhar para a frente, para cima, e continuar a sermos ambiciosos. Temos de continuar a querer crescer, desenvolver e revelar atletas e a atingir resultados ainda não atingidos. Essa é a maior responsabilidade, não andar para trás, nem muito menos aceitar o que já temos e conquistámos. O mundo continua a girar, e o voleibol a evoluir e nós precisamos de acompanhar e correr atrás dessa evolução. Desportivamente temos que definir objetivos a curto, médio e longo prazo, desde a continuidade nas presenças em Europeus (2028 e 2030), tentando melhorar os resultados, a obter cada vez melhores prestações na Liga Europeia (2027 a 2031), e a ter a ambição e o sonho de chegar a uma participação num Mundial (em 2029 ou 2031)».
Rui Moreira sublinha ainda a importância de construir um projeto transversal que una todos os intervenientes da modalidade em Portugal:
«Quero, juntamente com a minha equipa técnica, acompanhar o mais perto possível o trabalho dos clubes, a evolução das jogadoras (as que jogam em Portugal e no estrangeiro), estreitar a relação com os clubes, aproximar-me das seleções jovens. No fundo, quero que esta Missão Desportiva seja um sentimento de todos, que tenha o compromisso de todos: Seleção, clubes, treinadores e atletas. O sucesso de Portugal depende de muita gente, também ele de um trabalho que é realizado o ano inteiro pelas jogadoras nos seus clubes. Queremos, desde o primeiro dia, tentar agregar, aproximar e tentar unificar todo o voleibol nacional à volta de uma seleção, de um projeto desportivo e de um objetivo comum».
A visão para a equipa assenta na consolidação de uma cultura de exigência e orgulho na camisola nacional:
«Precisamos de continuar a criar uma mentalidade vencedora, de muito trabalho e de querer jogar olhos nos olhos com as melhores seleções das competições em que iremos participar. Precisamos de trabalhar muito o ano inteiro para que no período de competição internacional nos apresentemos em boa condição. É este um caminho de mão dupla entre clube e seleção e de atleta de clube e atleta de seleção. E, por fim, continuar a desenvolver um sentimento de querer representar o país, de querer defender a bandeira nacional, e de trabalhar muito para cada vez mais vezes colocarmos o nome de Portugal no mapa do voleibol mundial».
Uma ligação profunda ao voleibol português
O conhecimento do panorama nacional é uma das armas do novo técnico. Com passagens anteriores pelas seleções de formação (Sub-15, Sub-16, Sub-17 e Sub-18) e como treinador adjunto da seleção principal em 2019, Rui Moreira guarda uma proximidade estreita com a atual geração de jogadoras.
«Primeiro é um orgulho enorme poder receber o convite e a oportunidade de me entregarem a responsabilidade de comandar a Seleção de Voleibol Feminino. Esse deve ser sempre um sentimento e um expoente máximo de qualquer pessoa envolvida, seja ele dirigente, elemento da equipa técnica ou atleta. Quando o país nos chama devemos sempre responder com a nossa presença, com o nosso melhor trabalho e dedicação».
A sua caminhada pelas seleções jovens permite-lhe ter uma visão clara sobre o ciclo de desenvolvimento das atletas:
«Hoje encontro jogadoras possíveis de serem selecionáveis para a Seleção Sénior com quem trabalhei nas seleções jovens de Sub-15, Sub-16, Sub-17 e Sub-18. Outras com quem trabalhei em 2019 quando era adjunto da Seleção Sénior. E encontro ainda algumas jogadoras que davam os seus primeiros passos na primeira divisão nacional e faziam a sua estreia na seleção sénior quando representei clubes nos meus últimos anos em Portugal. Considero-me por isso completamente atualizado do estado do voleibol português, das necessidades e do caminho a traçar».
Sobre o plano de trabalho e a cooperação com as estruturas existentes, o técnico reforça:
«Penso que é fundamental saber fazer o processo de transição de um ciclo de sucesso, é fundamental também saber trabalhar juntamente com os clubes em prol do desenvolvimento da jogadora nacional. E, claro está, é muito importante estar sempre com o olhar atento nas próximas gerações, pois este trabalho, para além de ser um trabalho interminável e cíclico, também é bastante volátil, pois de um momento para o outro aparecem talentos das seleções jovens para suprir lacunas ou reforçar posições mais deficitárias. Esta relação com o Hugo Silva, com o Mário Martins e os outros treinadores das seleções jovens, e com os treinadores dos clubes, é um ponto chave para fazer funcionar o plano que vamos aplicar. Tenho a certeza que a experiência acumulada nas minhas primeiras passagens pela FPV me vai ajudar a orientar o caminho, a desenvolver jogadoras e a conquistar os objetivos traçados».
Dupla função e a resposta ao apelo do país
Apesar do desafio de liderar a seleção nacional, Rui Moreira irá manter-se aos comandos do Dentil/Praia Clube, conciliando o trabalho no voleibol brasileiro com a estrutura federativa portuguesa. Revela que teve outras propostas internacionais, mas o apelo de Portugal falou mais alto:
«É um regresso, mais ou menos. Eu mantenho a minha função como treinador do Dentil Praia Clube, em acumulação com o cargo de Selecionador Nacional. E provavelmente serei sempre treinador de clube, pois tem desafios diferentes dos de Selecionador Nacional, e é algo perfeitamente possível de se complementar e acumular. Mas a decisão é simples: o país chama e nós só temos de dizer presentes. Para representar o país não há fadiga, não há saturação nem há indisponibilidade. A Seleção abriu-me portas no passado, o voleibol português abriu-me portas também, está na hora de voltar a retribuir para que o voleibol português continue a crescer. O peso é exatamente esse, é um sentido de missão muito grande, e um sentido de responsabilidade muito forte».
O técnico admitiu a existência de abordagens de outros projetos internacionais de topo:
«Tive abordagens de outras seleções para assumir já em 2027, outras para assumir pós-mundial de 2027, com possibilidade até de fazer parte de equipas técnicas que estarão em Los Angeles 2028. Mas com muito orgulho, sentido de missão e de responsabilidade, quando recebi o contacto da FPV tudo isso passou para segundo plano. Tenho tempo para grandes voos, espero fazer muitos deles com a seleção, mas quando o país nos chama temos de dizer presentes».
O ouro no Brasil e a afirmação do treinador português
A caminhada de Rui Moreira no Brasil ficou marcada pela superação e pelo sucesso num dos contextos mais exigentes do voleibol mundial. Ao conquistar a Superliga brasileira pelo Praia Clube, superando potências como o Gerdau Minas e o Sesc RJ Flamengo orientado por Bernardinho, o técnico luso provou a qualidade dos profissionais portugueses.
«Sinto-me feliz, principalmente porque como Português, com uma bandeira nas costas, consegui com essa conquista provar que o treinador Português tem valor, tem qualidade, e que muitas vezes só precisa de uma oportunidade. Digo-o muitas vezes: qualidade não tem nacionalidade. E tenho a certeza que por cada oportunidade que derem a um treinador Português por esse mundo fora, vão ser apostas de sucesso. Este regresso, ainda para mais como campeão, é um regresso carregado de felicidade, mas de muita responsabilidade».
Sobre o valor e a preparação dos treinadores nacionais, o técnico acrescenta:
«O treinador Português tem qualidade, tem valor, é metódico, é exigente, entende taticamente o jogo, tem capacidade de adaptação aos contextos, domina várias línguas. Infelizmente, ainda classificam a nossa qualidade pela nacionalidade que temos, apenas porque Portugal não é ainda uma Seleção de top 10, 20 ou 30 mundial. A maioria dessas opiniões são naturalmente infundadas. A Liga hoje tem uma organização e condições muito melhores do que muitas Ligas que se dizem de qualidade e mediatismo superior. Os clubes e as equipas técnicas hoje têm estruturas e condições que fazem inveja a muitos clubes das melhores ligas do mundo. A atleta nacional começa a ter mercado no estrangeiro em campeonatos melhores. Hoje temos a Júlia [Kavalenka] na A1 Italiana, a Alice [Clemente] e a Amanda [Cavalcanti] na Bundesliga alemã, a Beatriz Rodrigues na Primeira Divisão francesa, bem como muitas atletas nas competitivas ligas americanas. E o treinador Português começa cada vez mais a ter expressão internacional, comigo no Brasil, com o André Sá em França, com o Ricardo Lemos em Espanha, com o Bruno Leite no Brasil também. Foi uma conquista que ajudou a colocar o nome do treinador Português ainda mais forte no mapa».
A chegada ao voleibol sul-americano envolveu desconfiança inicial, algo que Rui Moreira utilizou como motivação extra:
«Foi o combustível perfeito para dar um empurrão nos momentos difíceis. Entendo essa desconfiança, entendo a dúvida com os resultados iniciais, mas volto a reforçar: qualidade não tem nacionalidade. Jogo numa Superliga supercompetitiva, tenho uma estrutura enorme por trás que me dá todas as condições e suporte. A Estrutura de Desporto do Praia não permite que nada nos falte, nem que nenhum momento de instabilidade nos afete o dia a dia. Tive ao meu lado uma equipa técnica leal e comprometida, e um grupo de atletas que acreditou no nosso trabalho e nas ideias propostas desde o primeiro dia. Como se costuma dizer, “pagamos para ver” e conseguimos provar que tínhamos um grupo de grande valor».
Da formação ao topo: a construção de um percurso vencedor
A bagagem tática e emocional de Rui Moreira foi forjada ao longo de anos de exigência no voleibol português. As passagens marcantes pela AJM/FC Porto (onde conquistou seis títulos em três anos) e pelo SL Benfica (onde quebrou um jejum de 50 anos sem títulos nacionais de seniores femininos) moldaram a sua capacidade de lidar com a pressão.
«Em jeito de brincadeira eu costumo dizer por aqui que a pressão social e das redes sociais em nada se compara a jogar um Porto x Benfica, um Benfica x Sporting, ou um Porto x Sporting, de pavilhão lotado. Porque realmente quando envolve claques de futebol a atmosfera dentro do pavilhão muda, a semana é diferente. Sente-se isso no dia a dia e nas atletas, que sabem que está algo mais em jogo do que o próprio jogo. Essa pressão ajudou-me muito a crescer».
Ao recordar o projeto da AJM/FC Porto, Moreira destaca o impacto no desenvolvimento do voleibol feminino no país:
«Demos um passo enorme com a AJM/FC Porto. Um clube que começou com quatro amigos (o meu pai, o Sr. Magalhães e o José Carlos) e que depois se associou a um clube enorme do panorama desportivo nacional foi o responsável por impulsionar o profissionalismo do voleibol feminino em Portugal, a condição económica da jogadora portuguesa e dar condições para profissionalizar as equipas técnicas. Foram anos em que ajudámos muito a que o voleibol português crescesse e impulsionámos o desenvolvimento da Liga, pois ninguém queria ficar para trás. Colocámos a AJM/FC Porto no mapa das competições europeias».
A etapa seguinte, no SL Benfica, revestiu-se de igual significado pessoal e profissional:
«A passagem pelo Benfica é também ela muito especial. Tive a oportunidade de trabalhar ao lado de uma pessoa como o professor José Jardim, que, depois do meu pai, foi a pessoa que mais contribuiu para o meu desenvolvimento como treinador de voleibol. Alguém com quem aprendi muito e que me ajudou a crescer, construindo comigo e com o André Lopes uma ideia e um sonho de fazer do Benfica campeão. Algo que naquela altura era muito difícil, pois a hegemonia do FC Porto estava muito forte e consolidada. Foram anos de muita luta e que me moldaram como treinador».
Olhando para a sua génese, o novo selecionador reconhece dois momentos decisivos que o desviaram do percurso enquanto atleta para as funções de técnicos:
«Tive dois momentos, ou duas pessoas muito importantes. O primeiro foi o convite que o meu pai me fez para o ajudar a trabalhar num clube, no CD Fiães. Eu sempre disse que só pensaria em ser treinador quando parasse de jogar, mas lá fui, comecei a motivar-me e a ganhar o gosto pela carreira. Depois, tive um treinador, tanto nas seleções jovens como no GC Vilacondense, o Professor Hugo Silva, que sempre foi uma pessoa que me inspirou a ser treinador, pela sua forma de ser resiliente e por mostrar que com o trabalho, o treino e o dia a dia, poderíamos conseguir tudo aquilo que queríamos».
É com esse legado de resiliência, trabalho de base e conquistas internacionais que Rui Moreira assume agora o leme da Seleção Nacional de Seniores Femininos, pronto para conduzir o voleibol português a novas metas no cenário mundial.
Ver CV de Rui Moreira AQUI