As «heroínas de Baku» preparam o assalto a Istambul após feito memorável no Europeu
A caminhada da Seleção Nacional de Seniores Femininos continua a desbravar territórios inéditos no voleibol nacional. Na sequência do impacto gerado pela conquista da European Silver League em 2024 – ponto de viragem estrutural que incutiu uma nova cultura de exigência –, a equipa das quinas transformou a sua segunda presença no mapa das grandes decisões europeias num marco de realce para o desporto feminino português.
A confirmação da passagem aos oitavos de final ficou carimbada após uma batalha épica contra a Roménia, decidida num tie-break angustiante de 15-13 (15-25, 26-24, 20-25, 27-25 e 15-13), no encerramento da Pool C, em Baku. Uma vitória de pura resiliência que deu sequência ao primeiro triunfo em fases finais de Europeus, alcançado no encontro anterior (3-1), sobre a Espanha.
Agora, as atenções viram-se para o mítico caldeirão do Sinan Erdem Sports Hall, em Istambul. Portugal entra em campo no dia 31 de agosto (19h00 locais/17h00 em Portugal) para medir forças com a Polónia, que venceu (3-2) no último jogo da Pool A a toda-poderosa Turquia, campeã europeia em título e vencedora da Liga das Nações 2026.
Hugo Silva: “A nossa condição mínima
é entrar em campo para ganhar “
Com o bilhete garantido para a Turquia, o Selecionador Nacional, Hugo Silva, faz o raio-X a uma campanha inesquecível e coloca o dedo na ferida sobre o futuro da modalidade.
A prova de fogo mental no ‘tie-break’ de Baku: “Após a exigente preparação, fomos percebendo que a equipa estava a evoluir. Sabia que, diante de Bélgica e Holanda, as jogadoras iriam adquirir a bagagem competitiva necessária para discutir os jogos com Espanha e Roménia. Mais do que maturidade, tínhamos rotinas trabalhadas centenas de vezes. A única forma de ultrapassar a inexperiência era preparar tudo ao detalhe para que, nos momentos decisivos, nada falhasse. Foi isso que aconteceu, com uma importante dose de inspiração.”
Três anos de envelhecimento em três dias? “Sinto que a equipa cresceu imenso em qualidade e disfarçou a juventude. Quem envelheceu fomos nós, a equipa técnica: três anos em apenas três dias! As atletas adaptaram-se com uma bravura notável a mais de 50 sets disputados até ao 15-13 final.”
Teto máximo ou início do assalto à elite europeia? “Este resultado não pode servir para tapar os olhos ao que ainda há por fazer no voleibol feminino português. Precisamos de elevar a qualidade das nossas atletas e transformar a quantidade de praticantes numa massa crítica mais forte. Nem tudo está bem e este sucesso tem de ser a inspiração para querermos mais, porque o panorama atual ainda não chega.”
O plano tático e a garra lusa na hora H: “O plano tático nunca vai pela borda fora. O que aconteceu no quarto set foi a consciência de que estávamos perto de algo inimaginável. O serviço (ás) da Joana Garcez teve a mesma importância que as defesas da Matilde, os blocos da Amanda, os ataques da Júlia, a leitura da Mariana ou o apoio do banco. O sucesso só existe com um grupo unido.”
O fim do rótulo de ‘parente pobre’: “Internamente, o voleibol feminino já ultrapassou há muito o masculino, mas lá fora o caminho ainda é longo. Não podemos confundir quantidade com qualidade nem achar que os problemas estão resolvidos. Temos alcançado feitos soberbos com recursos limitados, uma realidade que se esgota se não houver coragem para agir.”
A ambição para a batalha de Istambul: “Vamos para a Turquia disputar a nossa terceira final. E, como em qualquer final, a filosofia não muda: entramos em campo para ganhar.”