DUPLO IMPACTO NA ALEMANHA

De rivais em Lisboa a companheiras no Rote Raben da Alemanha.

A zona 4 encarnada e a central leonina deixaram os maiores rivais da capital para partilharem balneário na Bundesliga. Alice Clemente e Amanda Cavalcanti explicam o salto internacional, o peso da Seleção Nacional e como a amizade ultrapassou a rivalidade de dérbis marcados pelo fogo e pela paixão. De águias e leoas para a aventura alemã…

Depois de anos de dérbis fervorosos entre Benfica e Sporting, as trajetórias de Alice Clemente (zona 4, 23 anos, 1,82m) e Amanda Cavalcanti (central, 24 anos, 1,87m) cruzam-se agora a milhares de quilómetros de Lisboa. Ambas escolheram o Rote Raben Vilsbiburg para a primeira aventura no estrangeiro na época 2026/2027.

Para Amanda, dizer «até já» ao Sporting após sete temporadas com o leão ao peito foi um processo emotivo. «Foi um sentimento agridoce. Tive muita sorte em ter o Sporting como a minha segunda casa e família durante tantos anos, onde me moldei muito como pessoa e atleta. Mas a escolha da Bundesliga surge pelo desejo de me desafiar num campeonato muito equilibrado, que promove jogos competitivos e decisivos para o crescimento de qualquer atleta», revela a central nascida no Brasil.

Do lado encarnado, Alice Clemente fechou um ciclo de cinco anos na Luz recheado de troféus – uma Taça de Portugal, duas Supertaças, o histórico campeonato nacional ganho após 50 anos de jejum e a estreia na Liga dos Campeões. «Senti que precisava de mais um pouco. Como já era um desejo meu sair de Portugal e experimentar uma nova liga, no ano em que o meu contrato ia terminar comecei efetivamente a pensar em sair», recorda a internacional portuguesa natural de Ourém.

A amizade que facilita a adaptação

Se a mudança para um país com cultura e língua distintas podia ser exigente, ter um rosto familiar no balneário suavizou o impacto. «Fiquei muito feliz por saber que poderíamos ser colegas. Graças aos projetos da Seleção desde que éramos mais novas, tornámo-nos amigas de anos. Ter uma cara amiga estando longe de casa faz toda a diferença», destaca Amanda.

Alice subscreve a importância deste porto de abrigo: «Ter a Amanda ao meu lado faz com que todo este processo de adaptação seja menos solitário e difícil. Jogar fora pela primeira vez pode ser bastante duro na adaptação a novas rotinas e línguas».

Em Vilsbiburg, Alice enverga a camisola 8 (embora preferisse o 9, com que construiu carreira) e destaca a atmosfera germânica: «Estou encantada! Os pavilhões estão sempre cheios, desde a primeira à última equipa da tabela, e o ambiente é ótimo». Amanda escolheu o 14, unindo o 4 das centrais ao 1 que enverga na Seleção, e conta com o suporte do técnico Guillermo Gallardo, que elogiou a sua impulsão e velocidade.

A Seleção como alavanca e a marca da família

O momento fulcral para o salto internacional de ambas esteve diretamente ligado ao percurso recente e histórico da Seleção Nacional feminina. A conquista da Silver League em 2024, na Finlândia, e o brilhante trajeto no EuroVolley 2026, onde Portugal terminou entre as 16 melhores seleções europeias antes de cair nos oitavos de final frente à Polónia, deram a bagagem e a confiança necessárias.

Alice, eleita MVP da final da Silver League 2024 com 21 pontos, assume que a distinção foi determinante: «Receber essa distinção ajudou-me a perceber que todo o trabalho ao longo dos anos tinha um objetivo e deu-me a confiança para traçar este percurso no estrangeiro». Sobre a subida de patamar no Europeu, a atacante assume o orgulho: «Olhar para o outro lado da rede e perceber que temos potencial para disputar um ótimo jogo contra potências mundiais é sinal de que estamos num ótimo caminho».

Amanda, que brilhou com 18 pontos e 64% de eficácia na mesma final em Tampere, recorda o embate contra jogadoras da elite mundial, como a polaca Magdalena Stysiak: «O Europeu permitiu-nos ter contacto com um nível de jogo que a maioria nunca tinha experimentado. Para mim, enquanto central, foi fundamental para descobrir como jogar no alto nível, com velocidade de ataque e rapidez na tomada de decisão no bloco».

Além do momento coletivo, Amanda traz no ADN a inspiração de uma dinastia desportiva transatlântica. «Ver o exemplo dos meus pais e tudo o que construíram no desporto sempre me incentivou a querer traçar este caminho. Ter alguém na família que entende o processo de sair do seu país torna tudo mais fácil. Não precisei de tomar a decisão sozinha, tive os conselhos e a experiência deles», enfatiza a central.

Por sua vez, Alice aponta o seu primeiro treinador como a figura marcante na sua escolha pelo profissionalismo: «O Ricardo Sardinha foi quem introduziu o voleibol na minha vida. Era e é ainda hoje como um segundo pai para mim». No plano das referências internacionais, aponta a brasileira Gabriela Guimarães como o seu grande modelo por ser «uma atleta muito completa».

Como se descrevem uma à outra: A visão mútua

Fora e dentro do campo, o respeito e o carinho moldam a ligação entre a central ex-Sporting e a zona 4 ex-Benfica.

Amanda Cavalcanti vista por Alice Clemente:

  • Como pessoa: «A Amanda é uma pessoa cheia de coisas boas, tem um sentido de humor enorme e é impossível estar perto dela e não rir. É muito sensível e gosta que todos à sua volta se sintam bem. Além disso, é uma ótima anfitriã: adora receber pessoas e tem um verdadeiro dom na cozinha.»
  • Como jogadora: «Ela é uma jogadora extremamente rápida, tanto no bloco como no ataque. Era uma dor de cabeça constante para mim nos dérbis, mas agora é uma enorme mais-valia termos a mesma camisola.»

Alice Clemente vista por Amanda Cavalcanti:

  • Como pessoa: «A Alice é muito tranquila, divertida e de convivência muito fácil. A sua maior virtude é a bondade; está sempre disposta a ajudar e a elevar o espírito da equipa quando é preciso.»
  • Como jogadora: «Enquanto central a jogar contra ela, a sagacidade da Alice a explorar o bloco no ataque era a minha maior dor de cabeça. Essa inteligência, alinhada com a sua força e potência, traz imensos benefícios para a equipa.»

Olhar o futuro com maturidade

Tanto para a ponta de Ourém como para a central radicada em Portugal, a Bundesliga é o primeiro capítulo de um voo mais alto. Alice Clemente, que brinca com a curiosidade de ter trocado as «águias encarnadas» pelos «corvos vermelhos» (Rote Raben), assume que sai uma jogadora mais madura: «O meu maior objetivo é perceber se jogar no estrangeiro é algo em que me imagino durante mais anos, ganhando experiência para ser uma atleta mais madura a jogar».

Para Amanda Cavalcanti, a ambição aponta a novos patamares: «O objetivo principal para esta época é crescer e destacar-me na Alemanha, para num futuro próximo conquistar o meu lugar noutras grandes ligas e chegar ao nível mais alto do voleibol mundial».

Entrevista detalhada de Amanda Cavalcanti aqui e de Alice Clemente aqui

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