No universo do desporto, onde a competitividade impera, há valores que se elevam acima do resultado final. O voleibol nacional volta a demonstrar que a justiça no jogo e a solidariedade são tão importantes como a vitória, através de dois exemplos recentes de fair-play e ética desportiva que culminaram na amostragem do cartão branco. Esta insígnia, implementada em Portugal pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) em 2015, serve como um reconhecimento oficial de comportamentos exemplares, uma causa fortemente abraçada pela Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) em todos os seus escalões.
O caso mais recente ocorreu no passado dia 23 de maio de 2026, no jogo número 4715, que opôs o Esmoriz ao Leixões nas meias-finais do escalão F8CM. A partida decorria com intensidade quando, aos 21-19 do primeiro set, o jogador número 8 do Esmoriz se lesionou após um ataque, batendo com a cabeça e o pescoço no chão. Perante a gravidade da situação, dois adeptos profissionais de saúde afetos ao Esmoriz saltaram da bancada para o terreno de jogo. Contudo, o grande momento de desportivismo veio do lado adversário. Flávio Cruz, antigo internacional português e pai de um atleta do Leixões, também ele profissional de saúde, correu de imediato para assistir o jogador do Esmoriz. Sendo fisioterapeuta, Flávio Cruz passou o resto do primeiro set a tratar o atleta no banco do clube rival, conseguindo recuperá-lo a tempo de regressar no segundo set. O jogador do Esmoriz, uma das peças mais influentes da equipa, voltou ao jogo em plena forma. Por esta atitude totalmente desprovida de clubismo, o árbitro Hugo Oliveira, da Associação de Voleibol do Porto, premiou Flávio Cruz com o merecido cartão branco.
Este gesto junta-se a outro ato de desportivismo puro registado a 19 de abril de 2026, durante o jogo do Campeonato Nacional de Juniores Femininos entre a Associação de Promoção da Juventude (APROJ) e o Voleibol Clube de Viana. No quarto set, com o resultado em 16-11 a favor do VC Viana, a atleta número 7 da APROJ sofreu uma lesão aparatosa. O árbitro da partida, Lino Miranda, também da Associação de Voleibol do Porto, assinalou bola tocada, o que daria ponto para o VC Viana, uma vez que não se tinha apercebido imediatamente da gravidade da situação nem anulado a jogada. Perante o cenário, a capitã em campo do VC Viana, Maria Constança, conhecida no meio como Concha, demonstrou uma enorme maturidade. A jogadora número 3 dirigiu-se ao árbitro e foi a primeira a afirmar que a jogada devia ser anulada para que a adversária fosse assistida, prescindindo do ponto a favor da sua equipa. O relatório do árbitro Lino Miranda imortalizou o momento que levou à amostragem do cartão branco à jovem atleta.
Estas ações isoladas refletem elevados valores de honestidade e respeito pelos adversários, honrando o propósito do Cartão Branco como um recurso pedagógico pioneiro em Portugal, nascido no âmbito do Plano Nacional de Ética no Desporto. O compromisso do voleibol com estas práticas não é de agora. Recorde-se que a Federação Portuguesa de Voleibol foi, em 2025, novamente agraciada com o Prémio Cartão Branco – Entidades pelo IPDJ, repetindo a distinção que já havia recebido na época 2022/2023 pelo seu trabalho contínuo na promoção dos valores éticos. Com estas atitudes, o Cartão Branco prova ser uma ferramenta poderosa que fortalece a cultura desportiva nacional, assegurando um futuro onde os valores humanos caminham lado a lado com a performance em campo.
O Cartão Branco é um recurso pedagógico pioneiro em Portugal implementado pelo IPDJ,
no âmbito da intervenção e prossecução dos objectivos do Plano Nacional de Ética no Desporto.
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