SEM COMPLEXOS NO MEIO DE GIGANTES

Faz hoje precisamente 20 anos que a Selecção Nacional de Seniores Masculinos conseguiu a proeza de se apurar para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo ao derrotar (3-1) a poderosa Polónia, no dia 5 de Outubro de 2002.

A Selecção Portuguesa de seniores masculinos era a mais baixa da elite do Voleibol presente no XV Campeonato do Mundo, mas não foi preciso pôr-se em bicos de pés para se fazer notada entre os gigantes da modalidade, selecções de elite e mais do que habituadas a ganhar praticamente tudo.

No balanço final ao Argentina 2022, é lícito afirmar que Portugal – excepção feita ao Brasil, que alcançou (finalmente) nesta edição do Campeonato do Mundo o seu primeiro título mundial, e à França, dona de uma tão surpreendente como merecida medalha de bronze – foi a selecção que mais dividendos retirou da participação no Argentina 2002.

Assestando baterias aos 16 primeiros, a Selecção Nacional conseguiu superar expectativas e avançar mais oito lugares, conquistando um resultado histórico para o Voleibol português. De igual importância foi o facto de ter ganho o respeito dos seus adversários – e a consideração dos órgãos de Comunicação Social de todo o Mundo –, não só pelas vitórias obtidas (China, Austrália, Polónia e Espanha), mas, sobretudo, pela forma aguerrida e sem complexos com que se bateu frente às melhores selecções do Ranking Mundial: Jugoslávia (1.ª), Itália (2.ª) e Rússia (3.º), momentos em que a vitória em pelo menos um set esteve iminente, mas infelizmente se quedou sem concretização. Mais: ficava no ar a promessa de os feitos conquistados além-mar não se ficarem por aí…

Fruto de seis meses de trabalho árduo e de algumas privações, o certo é que, para alcançarem uma posição de relevo entre a elite internacional, bastou que os jogadores fizessem o que a equipa técnica lhes dizia, ou seja, acreditassem piamente nas suas próprias capacidades e traduzissem essa confiança em momentos de Voleibol de alto nível, que surpreenderam equipas sem mácula como a Jugoslávia e a Itália, algo desorientadas com a garra dos portugueses.

Neste Mundial, verdadeira montra da modalidade a nível planetário, a Selecção Portuguesa jogou como um todo, tendo mesmo melhorado alguns dos seus pontos menos sólidos, como o bloco e o serviço, mas seria injusto deixar de salientar as posições alcançadas por João José (1.º no bloco e escolhido para a Selecção do Mundial), Manuel Silva (2.º na recepção e 19.º no serviço), Hugo Gaspar (6.º nos pontuadores, 8.º no ataque e 10.º no bloco), Nuno Pinheiro (3.º na distribuição), Carlos Teixeira (6.º na recepção e 9.º na defesa) e Jorge Alves (12.º nos pontuadores e 19.º no ataque), um verdadeiro gigante de apenas 1,87 metros de altura.

Sobre Portugal, resta dizer que estes verdadeiros heróis dos tempos modernos saíram vitoriosos da sua batalha de Aljubarrota….

Em termos gerais, pode dizer-se que houve vencedores e… decepções. Dos primeiros têm que fazer parte, obrigatoriamente, Brasil, Rússia e França, aos quais se juntam, ainda que por motivos diferentes, Portugal e Grécia e, ainda, Marcos Milinkovic. As decepções acabaram por ser a Itália e a Jugoslávia, as selecções mais credenciadas que ficaram fora do pódio e em lugares pouco condizentes com os seus pergaminhos e o valor do seu Voleibol. A estas duas pode-se acrescentar outra selecção, Cuba (19.ª). Outra decepção, diferente e mais abrangente, foi a sentida pela Argentina, país e selecção, no momento em que foi afastada (1-3, pela França) da luta pelos primeiros lugares. O sexto lugar conseguido pelos argentinos – igualando a posição alcançada no Mundial de 1990 – acabou por saber a pouco face às expectativas criadas em relação a uma repetição do Campeonato do Mundo de 1982, quando conquistaram, no Luna Park, a Medalha de Bronze, o momento mais alto na história do seu Voleibol.

A Selecção do Brasil sagrou-se campeã mundial, pela primeira vez na sua história, ao vencer, por 3-2 (23-25, 27-25, 25-20, 23-25 e 15-13), a Rússia na Final do XV Campeonato do Mundo – Argentina 2002, realizada no Luna Park de Buenos Aires. Este é o segundo título – o primeiro foi o dos Estados Unidos, em 1986 (Paris) – não conquistado por um país da Europa.

Ao vencerem os russos, os brasileiros mataram dois coelhos com uma só cajadada: vingaram-se das derrotas sofridas na Final da Liga Mundial 2002 e no Campeonato do Mundo 1982, quando a Rússia (então União Soviética) somou o último dos seus seis títulos rubricados na prova.

O desaire sofrido na Final do Mundial de 82, igualmente organizado pela Argentina, disputada no Luna Park, ficou a ensombrar a memória colectiva do povo brasileiro, que apelidou os jogadores dessa selecção – Renan, William, Bernard… e Bernardo Rezende, então distribuidor suplente – de Geração de Prata.

Dez anos passados desse esforço inglório, outra geração de jogadores – Tande e Marcelo Negrão, entre outros – conquistaria a Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona 92 e, um ano depois, a Liga Mundial.

Presente como jogador nos títulos mundial e olímpico falhados, respectivamente, em 1982 e 1984, Bernardo Rezende conseguia agora, como treinador, dar ao Brasil o título que faltava na sua vitrina de êxitos…

Logo que assumiu a direcção da equipa técnica da selecção canarinha, em 2000, Bernardinho – como foi sempre mais conhecido – tornou evidente a renovação da equipa. Assim, aos históricos Maurício, Giba, Nalbert e Gustavo, o treinador injectou o sangue novo de André Nascimento, Henrique e Ricardo (Escadinha). O resultado dificilmente poderia ser melhor: em nove competições disputadas, o Brasil conquistou sete.

No Argentina 2002, a selecção brasileira apenas sofreu uma derrota – frente aos Estados Unidos, na 1.ª Fase – e eliminou a tricampeã mundial Itália (quartos-de-final) e a Jugoslávia (meias-finais), campeã olímpica e europeia.

Sem nenhum jogador nos 10 primeiros dos Melhores Pontuadores, o Brasil fez sobressair o colectivo em detrimento de valores individuais e teve no serviço uma das suas armas mais eficazes, tendo colocado quatro jogadores no Ranking dos Melhores Servidores: Gustavo Endres (3.º), Henrique Randow (4.º), Giba(5.º) e André Nascimento (8.º).
No ataque, André Nascimento André (1.º) e Nalbert (2.º) foram os melhores; o mesmo acontecendo com o veterano Maurício (melhor distribuidor). De resto, apenas Gustavo (9.º) apareceu nos 10 primeiros no bloco e Sérgio Santos na recepção (3.º) e defesa (4.º).

Ranking dos Melhores Blocadores

Pos. N.º Nome País Blocos Falhados Ressaltos Total P/set
1 12 José, João POR 29 26 47 102 0.83
2 13 Egortchev, Andrei RUS 28 48 67 143 0.78
3 14 Miljkovic, Ivan JUG 19 18 17 54 0.63
4 12 Geric, Andrija JUG 19 31 38 88 0.63
5 17 Kieffer, Olivier FRA 22 63 55 140 0.63
6 3 Gravina, Pasquale ITA 22 47 50 119 0.59
7 1 Milinkovic, Marcos ARG 21 35 42 98 0.57
8 3 Daquin, Dominique FRA 20 49 53 122 0.57
9 13 Endres, Gustavo BRA 19 38 48 105 0.56
10 8 Gaspar, Hugo POR 18 13 18 49 0.51
16 11 Pereira, Ubirajara POR 16 27 54 97 0.46
20 15 Alves, Jorge POR 14 31 35 80 0.40
32 6 Silva, Manuel POR 9 21 13 43 0.26
45 3 Pinheiro, Nuno POR 7 12 18 37 0.20
66 1 Reis, Roberto POR 2 1 8 11 0.06
68 9 Paço, Adriano POR 2 4 3 9 0.06
 n/a 14 Cruz, Flávio POR 3 3
5 Milhazes, Fábio POR 1 1

Prémios individuais

Jogador mais valioso – Marcos Milinkovic (ARG)
Maior Pontuador – Marcos Milinkovic (ARG)
Melhor atacante – André Nascimento (BRA)
Melhor no bloco – José João (PORTUGAL)
Melhor no Serviço – Frantz Granvorka (FRA)
Melhor distribuidor – Maurício Lima (BRA)
Melhor na recepção – Pablo Meana (ARG)
Melhor na defesa – Hubert Henno (FRA)

Selecção Super Seven

Distribuidor: Nikola Grbic (JUG)

Oposto: Marcos Milinkovic (ARG)

Zona 4: Serguei Tetioukhine (RUS)

Zona 4: Stephane Antiga (FRA)

Central: Gustavo Endres (BRA)

Central: José João (PORTUGAL)

Libero: Hubert Henno (FRANÇA)

Ranking Final

1.º  Brasil
2.º Rússia
3.º França
4.º Jugoslávia
5.º Itália
6.º Argentina
7.º Grécia
8.º Portugal
9.ºs Japão
Holanda
Polónia
Estados Unidos
13.ºs Bulgária
China
República Checa
17.º Canadá
Venezuela
19.ºs Austrália
Croácia
Cuba
Egipto
Tunísia
Cazaquistão

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