19-MARÇO-2019
A garra afiada de um Portugal cada vez mais ambicioso

MARTA HURST: “SELECÇÃO LUTADORA
E COM VONTADE DE VENCER”

 


Reza um parecer da Comissão Técnica da FPV, em 1980/81, que “pela primeira vez na história do Voleibol deste País, movimentaram-se todos os escalões etários masculinos e femininos que existem a praticar Voleibol [Selecções Nacionais]. Supomos que este acto constitui motivo de forte júbilo para as pessoas que nesta entidade se esforçam pelo desenvolvimento da modalidade”.

Na década seguinte, o investimento nos escalões mais jovens e no sector feminino tornar-se-ia ainda mais visível e, aos poucos, os frutos começariam a brotar.
Uma longa caminhada (escalada!), que se iniciou com competições «quase ibéricas» e atingiu o seu cume com o tão desejado apuramento para o Campeonato da Europa.
Isso ficou a dever-se a um investimento crescente nos femininos, a uma organização e profissionalismo cada vez maiores e melhores e ao trabalho e esforço de treinadores e de atletas que vão desde Rosário Mengo, Emília Pereira, Paula Vilarinho, Palmira Castro, as irmãs Maria José e João Schuller, Cristina Pereira, Helena Jorge, Filipa Duarte, Paula Semedo, Daniela Sol, Marta Massada, Ana Carlos Teixeira, Joana Ferreira, Ana Paulo, entre tantas outras, até às actuais jogadoras da Selecção Nacional.

Pelo meio ficaram inúmeras horas de torneios de preparação, estágios concentrados – investimento que serviu como alavanca no desenvolvimento das selecções – e fases de qualificação para Europeus ou Mundiais marcadas pela forte concorrência das equipas do Velho Continente e, como tal, lutas inglórias

O tempo presente é de festa. As seniores finalmente conseguiram o que todos desejavam e, agora, é preciso aproveitar o momento e consolidar o estatuto europeu.

Marta Hurst, camisola n.º 10, é um dos actuais pilares em que assenta a Selecção Nacional de Seniores Femininos, contando já com mais de sete dezenas de internacionalizações.
Conhecida pela sua raça, é bem a imagem de uma Selecção Nacional de Seniores Femininos com uma personalidade e uma identidade cada vez mais vincadas.

Os 26 anos de idade e a experiência internacional acumulada nos últimos anos fazem com que os seus 1,83 metros de altura superem obstáculos e blocos que antes pareciam intransponíveis.

O que sentiste quando conseguiram a qualificação histórica? Acreditaste sempre que seria possível?
– “Acho que no momento em que ganhámos o jogo na Dinamarca (que garantia o apuramento, independentemente dos dois jogos em Janeiro), demorou um pouco a assentar a realidade do que tínhamos conseguido. Tinha sido “apenas” um jogo, onde uma vitória é sempre um sentimento bom... Mas acho que no imediato, quando o árbitro apitou o último ponto, ainda demorei a interiorizar o nosso feito. Depois sim, pensei “estamos no Campeonato da Europa”! Se tive dúvidas? Nunca pensei sobre isso em concreto. Para mim, cada jogo era um jogo e queria sempre ganhar. O apuramento seria consequência dessas vitórias”.

O que pode fazer esta Selecção no Europeu?
– “Tivemos um sorteio complicado. Começamos com a Itália, uma selecção fortíssima, tanto a nível físico como técnico-táctico. A Polónia também é uma equipa com presenças regulares neste nível competitivo, tal como a Bélgica. Acho que a Ucrânia e a Eslovénia (por já termos jogado contra ambas e conhecermos um pouco melhor os seus estilos de jogo) são duas selecções com quem eventualmente nos podemos bater num pé mais de igualdade, em comparação com as outras equipas. No entanto, vamos entrar em todos os jogos com a mesma ambição e vontade de dar o máximo possível e, se possível, vencer. As características do nosso grupo não nos permitem ter outra atitude que não uma atitude lutadora. Acho que este é um dos pontos a nosso favor; tal como acho que, actualmente, as diferenças físicas (altura) não são tão notórias se compararmos as atletas por posições”.

Qual o passo mais importante neste percurso «europeu»?
– “O passo mais importante já foi dado. Foi a aposta feita não só pela Federação como também pelas atletas que foram convocadas nos últimos anos. Não é fácil abdicar da vida extra-Voleibol durante 4 meses, pois a maioria das jogadoras não vive dos rendimentos que tem da modalidade. O passo seguinte é a continuação do apoio da Federação em dar ao feminino as condições objectivamente necessárias para se obterem os resultados desportivos que todas desejamos. E claro, muito trabalho, espírito de sacrifício e dedicação. Também penso que será importante haver solidariedade e paciência, companheirismo entre as atletas e o staff. Se durante o Verão conseguirmos manter isto, vamos conseguir fazer bons jogos na Silver European League, e chegar bem preparadas ao Europeu”.

O que é que o vosso feito pode significar em termos de futuro para o Voleibol Feminino? Sentes que já teve impacto no público ou, pelo menos, nos seguidores do Voleibol?
– “Este feito é um marco no Voleibol Feminino Português: ser a primeira vez que se conquistou a classificação para uma fase final de um Campeonato da Europa. Em termos do impacto, espero que no futuro a aposta se mantenha, quer do lado da FPV quer das atletas. Espero ver que ambas as partes querem mais e melhor: melhores condições e melhores resultados. Acho que formamos um grupo de atletas que se nos forem dadas as condições para trabalhar de forma consistente e com qualidade, podemos abrir um caminho para que Portugal se torne uma presença mais assídua nas competições internacionais de relevo.
Em relação à segunda parte da pergunta, para mim, o Voleibol Feminino passa muito despercebido ao nível do grande público, apesar de ser uma das modalidades desportivas que mais praticantes tem no Feminino em Portugal. Há pouco interesse dos meios de comunicação na modalidade do Voleibol em si - e depois, como acontece com todas as modalidades, em Portugal e no mundo, há sempre menor interesse pela versão da modalidade quando praticada no feminino, portanto, o Voleibol feminino ainda menos visibilidade tem. Acho que dentro dos seguidores do Voleibol há pessoas que nos apoiam bastante, que querem verdadeiramente ver a Selecção Feminina a ter sucesso. Mas também acho que há um número elevado de pessoas que banalizam aquilo que conseguimos alcançar/conquistar. Pessoas que comparam os nossos resultados com os resultados do masculino (que são muito bons, sem dúvida), mas cuja comparação não faz qualquer sentido, pelos contextos diferentes que subjazem a cada selecção
”.

“Vejo-me como uma jogadora intensa”

Federada desde 2003, Marta jogou nos escalões jovens pelo Rosário Voleibol, CA Trofa e GDC Gueifães, clube pelo qual integrou a equipa sénior até 2013.
Regressando ao Rosário Voleibol, sagrou-se campeã nacional, revalidando o título na época 2014 / 2015 já sob as cores do Porto Vólei.
O SC Arcozelo foi, em 2016, o seu último clube português.
Já com um Mestrado em Treino de Alto Rendimento Desportivo, iniciou a sua carreira internacional no CV Barcelona. Seguiram-se Haro Rioja Volley e Club Voleibol Haris em Espanha e, agora, Volley Hermaea Olbia, em Itália.

– Tiveste a tua primeira experiência internacional na principal Liga Espanhola, onde representaste três clubes; actualmente representas o Volley Hermaea Olbia, em Itália. Porquê esta aposta no campeonato italiano e quais as principais diferenças/semelhanças em relação ao espanhol?
– “O campeonato italiano foi sempre um sonho que queria atingir, e quando surgiu esta oportunidade fiquei extremamente contente e não hesitei. A minha primeira impressão foi de que a A2 italiana é bastante competitiva e equilibrada. Há jogadoras bastante altas e todas as atacantes têm uma pancada muito agressiva. Em Espanha, também há um certo equilíbrio entre as equipas, mas penso que a nível de potência física Itália é superior. E em Itália, comparando com Portugal ou Espanha, a cultura voleibolística parece-me bem mais forte, quer a nível do profissionalismo espelhado nas condições desportivas, quer ao nível do grande público. Como exemplo, posso referir a transmissão dos jogos em live streaming, que em Itália é feita já ao nível da 2.ª Divisão. Em Espanha há obrigatoriedade de ter streaming em todos os jogos da 1.ª Divisão, e em Portugal acontece só em casos esporádicos da 1.ª Divisão”.

E diferenças entre Portugal/Espanha/Itália, em termos de cultura desportiva e de sociedade que já tenhas sentido?
– “Espanha e Portugal são bastante parecidos a nível de cultura desportiva, havendo alguma variação ao nível do investimento económico. Como disse antes, Itália é um país com bastante tradição no Voleibol, embora o Futebol seja sem dúvida o desporto mais valorizado, tal como em Portugal e Espanha. Em termos de sociedade, nunca senti grandes dificuldades: os três países são países do Sul da Europa e o modo das pessoas se relacionarem é razoavelmente semelhante. Sempre tive alguma familiaridade com o espanhol enquanto língua, e ao longo destes anos a jogar em Espanha desenvolvi-o ainda mais, chegando ao ponto de realmente não ter qualquer dificuldade de comunicação, quer em termos desportivos quer na vida diária. Agora, tenho um novo desafio com a língua italiana, que domino ainda pouco, mas o suficiente para uma boa comunicação com as minhas colegas de equipa e com o staff”.

Jogadora multifacetada, campeã nacional de Voleibol de Praia em 2014, no Indoor és conhecida pela tua garra e pela entrega ao jogo, mas como é que tu te vês como jogadora? Pontos fortes e menos fortes?
– “Vejo-me como uma jogadora intensa, e a entrega e a garra fazem parte dessa intensidade. Esta intensidade tento aplicá-la também naquela que penso ser a minha maior arma: o ataque. Tenho uma boa capacidade física para aplicar força, sem ser muito alta ou saltar imenso, e isso dá-me alguma vantagem para explorar o bloco e causar dificuldades à defesa baixa da equipa adversária. O gesto técnico em que provavelmente tenho menos eficácia será o bloco! Não sou conhecida por aportar muitos pontos à minha equipa nesse sector, mas tento compensar com a defesa e o serviço agressivo. Sou também extremamente disciplinada, o que me ajuda em termos das rotinas de treino, quer de trabalho com bola quer de trabalho físico, alimentação e recuperação/descanso. Gosto mesmo muito de treinar, porque sei que cada treino é mais uma oportunidade de poder melhorar enquanto jogadora”.

 
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