29-MAIO-2020 HÉLDER TEIXEIRA "O JOSÉ
MOREIRA
E O HUMBERTO ERAM OS MEUS HERÓIS"

Numa época em que havia forte rivalidade entre duas equipas – no espaço
de uma década (1969 a 1979) repartiram entre si os títulos de campeão
nacional –, dois jogadores sobressaíam dos demais, José Moreira
(FC Porto) e Humberto Silva (Leixões SC),
ainda agora considerados dos melhores jogadores portugueses.
Todavia, estes jogadores de alto nível tinham ainda assim de se esmerar
já que no campeonato português começavam a pontificar outros praticantes
de elevada craveira que marcaram igualmente os anos 70 e 80, como
Hélder Teixeira.
Sempre fiel à sua Associação
Académica de São Mamede, único clube que representou ao longo da
carreira, Hélder, actualmente com 57 anos, foi um dos melhores jogadores
da sua época e reconhecido pelas qualidades de «universal» numa equipa
que era uma verdadeira escola de valores, muito «certinha» e que se
notabilizava pela execução irrepreensível dos gestos técnicos. Enquanto
jogou, Hélder Teixeira foi sempre o seu maestro e capitão de equipa.
– Tendo acompanhado a evolução do Voleibol ao longo das últimas
décadas, que factores destacaria como os mais marcantes na modalidade a
nível mundial ?
“Eu diria que a alteração das regras e o mediatismo dado ao Voleibol
foram os factores mais marcantes. A alteração das regras claramente
alterou a forma de jogar, a estratégia a seguir em cada jogo e o
equilíbrio entre as equipas. O mediatismo está directamente ligado à
alteração das regras de jogo. Esta alteração, que de alguma forma fixou
melhor a duração de cada jogo, permitiu que a televisão aumentasse o
interesse no Voleibol. E a partir daí, a possibilidade de atrair mais
patrocinadores aumenta, o nível profissional aumenta também. Essa
conjugação de factores leva a um tipo de jogo com características mais
físicas do que técnicas. Não diria que o nível de jogo melhorou; o tipo
de Voleibol praticado é diferente”.
– E em Portugal, quando se saúda o regresso dos chamados
«grandes» à modalidade e o Voleibol português esteve em evidência, entre
outros momentos, com a vitória na Challenger Cup e regresso à Liga das
Nações, com o apuramento para os Campeonatos Europeus de Seniores
masculinos e femininos e Sub-20 masculinos e o regresso ao Circuito
Mundial de Voleibol de Praia através do Espinho Open?
“Por me encontrar a viver fora de Portugal desde 2009 [Moscovo e
Antuérpia], não tenho podido seguir a evolução do Voleibol em Portugal
como gostaria. O que penso, de qualquer forma, é que está tudo ligado. O
facto de os chamados grandes aparecerem de novo deve-se ao que eu já fiz
referência. E daí, a melhoria do nível e o facto de o Voleibol estar
mais equilibrado em termos competitivos ajudam a que nosso Voleibol se
aproxime dos patamares mundiais. Claro que a melhor e mais profunda
preparação dos nossos treinadores e dirigentes e a melhoria da qualidade
das instalações desportivas e acesso ao desporto contribuem
significativamente para esta positiva evolução do Voleibol em Portugal”.

– Foi internacional por mais de uma centena de vezes. Se fosse
ainda um jogador de alto nível, como pensa que encararia o regresso à
competição, numa altura em que ainda se combate a pandemia de Covid-19?
Recorda-se de alguma situação/experiência similar pela qual tenha
passado na sua carreira?
“Penso que ninguém na nossa geração passou por alguma experiência
semelhante à da Covid-19. A única experiência, durante a minha carreira
no Voleibol, que se pode aproximar um pouco daquilo que se passa agora,
foi vivida durante um torneio de Esperanças realizado em Angola, equipa
naquela altura brilhantemente dirigida pelo Prof. Fernando Luís e da
qual eu fui capitão. Nessa altura, o país sofria uma guerra civil
tremenda, a comida e os medicamentos escasseavam em Luanda, o
comportamento de alguns angolanos relativo à nossa equipa foi muito
agressivo. A combinação de todos estes «ingredientes» fizeram desta
viagem uma experiência inesquecível e muito marcante.
Penso que Portugal está a ser um modelo a seguir no que respeita a esta
crise, por isso eu encararia o regresso à competição com normalidade e
num espírito de solidariedade contínuo”.

– Qual é o momento competitivo que deixou recordações mais
fortes?
“Gostaria de mencionar vários momentos, porque alguns deles estão
ligados a pessoas que marcaram o nosso Voleibol de uma forma profunda ou
que me marcaram a mim como pessoa. Aqui vai a «lista»:
- 1.º Torneio de Mini-Voleibol em 1973. O meu treinador na altura era o
saudoso Prof. Costa Pereira;
- 1.º Título Nacional de Iniciados na época 1976-77 pelas mãos do
Arlindo Quelhas e do Bernardino Faria, pessoas que dispensam
apresentação pelo que foram para o Voleibol e para a AA S. Mamede (AASM)
e pelo que foram, e ainda são, para mim como pessoa;
- 1.ª Internacionalização Júnior em 1979, pelas mãos do José Moreira;
- 1.ª Internacionalização Sénior em 1980 (Spring Cup Alemanha), na
altura com 16 anos, onde me encontrei com outra pessoa que marcou o
Voleibol e o Desporto em Portugal – Prof. Manuel Puga. Nessa equipa fui
colega, pela primeira vez, do José Moreira, agora como jogador, e do
Humberto Silva;
- Poule de Apuramento para o Campeonato de Juniores na Guarda e Covilhã.
Passou-se no ano 1982 e fomos treinados pelo Prof. Vicente Araújo;
- Melhor Classificação de sempre numa Spring Cup em 1985, tendo como
treinador o Prof. Sebastian Mihailescu, com Rolando Sousa como
presidente da Federação e Director o D’Alte Pinho (6.º lugar na
Dinamarca, classificação repetida no ano a seguir na Áustria);
- Primeira presença da minha AASM nas competições Europeias em 1985.”
– Como se definiria como jogador no auge da sua forma?
“Eu considerava-me um «Universal» (na altura era muito importante,
mas para o Voleibol de agora parece ser um «pecado»), eficiente e com
forte espírito de luta e de equipa”.
– Olhando para trás e recordando os momentos em que se
enfrentaram e também quando jogaram juntos na Selecção, quem diria que
era o «melhor jogador português» nessa altura?
“O José Moreira e o Humberto Silva eram os meus heróis quando
comecei a jogar. Tentava não perder nenhum jogo deles. Os dois tinham
estilos de jogo muito diferentes, mas eram igualmente eficientes,
agressivos, tecnicamente muito bem dotados e fortes fisicamente. Não
gostaria de colocar nenhum deles à frente do outro. Eram os melhores”.

1.ª Internacionalização de Seniores (convocatória) aos 16 anos
Resumo do currículo desportivo
. Toda a sua carreira esteve ligada à AASM
. 2 Campeonatos Regionais de Iniciados
. 2 Campeonatos Nacionais de Iniciados
. 1 Campeonato Regional de Juvenis
. 1 Campeonato Nacional de Juvenis
. 1 Campeonato Nacional de Juniores
.1 Campeonato Nacional II Divisão
. Primeira Internacionalização em 1979 (Juniores)
. Primeira Internacionalização Seniores 1980 (com 16 anos de idade)
. Várias participações em Spring Cups (dois 6.º lugares, Dinamarca e
Áustria, 1985 e 1986)
. Várias participações em Torneios Internacionais
. 3 Poules de Apuramento para o Europeu (1 Juniores e 2 Seniores)
. Melhor Classificação Campeonato Nacional – 2.º lugar, época 1984-85
. Finalista da Taça em 1985
. 110 Internacionalizações
. Competições Internacionais pela AASM
. Capitão em todas as equipas em que jogou
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